Fatores ambientais influenciam morfologia e comportamento de peixes piauçu
Estudo feito na Universidade de São Paulo (USP) mostrou que
características físicas e comportamentais do peixe piauçu (Megaleporinus macrocephalus)
se modificam de acordo com as condições ambientais vivenciadas durante o
desenvolvimento.
No experimento, os pesquisadores
criaram descendentes de uma mesma fêmea em aquários com diferentes
configurações, com presença ou ausência de plantas e cascalho. Após oito meses,
os animais haviam desenvolvido diferentes formatos de boca e de corpo. A
posição das nadadeiras e a maneira como buscavam alimento também variou segundo
o ambiente.
Resultados do estudo, apoiado
pela FAPESP, foram descritos
no Journal of Experimental
Zoology B. Na avaliação dos autores, os dados indicam que fatores
ambientais influenciam o desenvolvimento larval nessa espécie por um processo
denominado plasticidade fenotípica.
“Mostramos que os processos de
desenvolvimento larval – que envolvem a expressão de genes que comandam a
construção de tecidos específicos, como músculos, tendões e ossos – são
influenciados por sinais ambientais”, disse à Agência
FAPESP Tiana Kohlsdorf,
professora da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto
(FFCLRP) da USP e coordenadora do estudo.
Segundo a pesquisadora, diversos
estudos conectam as informações genéticas com o fenótipo. Mas, normalmente,
avaliam a relação entre um fator ambiental isolado com um único traço do
fenótipo. “Nosso trabalho integra as condições de alimentação com a
complexidade do ambiente e avalia o efeito de diferentes combinações desses
dois fatores na morfologia, no comportamento e no desempenho locomotor dos
peixes”, afirmou.
O experimento foi conduzido durante
o mestrado de Bianca Bonini Campos,
primeira autora do artigo. Participaram da pesquisa Renata Brandt,
que teve bolsa da
FAPESP durante estágio de pós-doutorado, e Leandro Lofeu, doutorando na
Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP.
Quatro ambientes
Os pesquisadores dividiram mil
alevinos com 30 dias de vida em aquários com diferentes configurações. Nesses
criadouros, os pequenos piauçus foram alimentados de diferentes maneiras.
No ambiente denominado “superfície”,
havia vegetação apenas nessa região do aquário e somente nesse local o peixe
era alimentado. No ambiente chamado “generalista”, foram colocados, além da
vegetação na superfície, também um substrato complexo, composto por cascalho e
plantas, no fundo. O alimento ficava disponível nesses dois níveis do aquário..
A terceira configuração, que recebeu
o nome “substrato de fundo complexo”, era semelhante à segunda, com a diferença
de não haver plantas na superfície e a alimentação ser oferecida apenas no
fundo do aquário. Por fim, no ambiente chamado “substrato de fundo simples”,
havia apenas água e os alevinos eram alimentados apenas no fundo do criadouro.
Depois de oito meses, os animais
foram analisados segundo o desempenho de natação, o comportamento e a
morfologia – sendo que neste último quesito foram considerados a
posição relativa da boca e das nadadeiras e o formato do corpo
“Observamos alterações,
principalmente na região da cabeça, quando comparadas às médias da espécie.
Percebemos um deslocamento na posição do rostro [equivalente ao rosto em
humanos], às vezes voltado para cima. Identificamos corpos mais achatados e
diferentes posições de nadadeiras, entre outras modificações”, disse Campos.
Os indivíduos que cresceram nos
ambientes “superfície” e “generalista” desenvolveram um rostro com a boca mais
voltada para cima do que os peixes dos ambientes “substrato complexo” e
“substrato simples”, em que a alimentação era fornecida apenas no fundo.
Além disso, os piauçus da
configuração “superfície” desenvolveram um corpo mais robusto e expandido no
ventre, enquanto os do ambiente “generalista” se tornaram mais alongados e achatados.
Os que se alimentaram mais no fundo (“substrato complexo” e “substrato
simples”), além da boca mais voltada para baixo, tinham o corpo mais achatado
no ventre.
As posições das nadadeiras diferiram
conforme o ambiente em que os alevinos se desenvolveram. Outra diferença
marcante se deu entre os peixes de ambientes de “substrato complexo” e
“generalista”. Os primeiros desenvolveram caudas mais longas e altas do que as
dos “generalistas”, e nadadeiras peitorais mais próximas do rostro e nadadeira adiposa
(pequena estrutura localizada entre a cauda e a nadadeira dorsal) posicionada
de forma mais perpendicular ao corpo.
Velhos hábitos
Quando colocados em um ambiente
diferente do que foram criados, os peixes mantiveram os comportamentos
adquiridos na fase do desenvolvimento. Em um aquário dividido em quatro, com
cada quadrante representando um dos ambientes do experimento, os piauçus
preferiram o local que mais se assemelhasse àquele em que cresceram. Por meio
de uma canaleta, foi oferecido alimento no fundo e na superfície do aquário.
Os peixes frequentemente mantiveram
o comportamento alimentar habitual.“Se a comida era disponibilizada também na
superfície, mas eles cresceram se alimentando no fundo, eles se mantinham no
fundo. Se a ração estava presente também no fundo, mas o hábito era se
alimentar na superfície, ficavam majoritariamente na superfície”, disse
Kohlsdorf.
A plasticidade nas características
morfológicas e comportamentais, no entanto, não alterou a capacidade dos peixes
de fugirem de um potencial predador. Colocados individualmente em um aquário
apenas com água, os animais foram filmados depois que os pesquisadores faziam
um movimento simulando uma tentativa de predação. A velocidade e a aceleração
de deslocamento foram medidas e não houve diferença significativa entre os
diferentes grupos de peixes.
“Vimos que a capacidade de responder
ao ambiente de desenvolvimento é hereditária e específica de cada grupo. Não
acontece com qualquer espécie e, até então, não se sabia se para esse peixe os
programas de desenvolvimento eram capazes de integrar a informação do ambiente
de desenvolvimento e as informações genéticas. Mostramos que sim”, disse
Kohlsdorf.
O artigo Different developmental environments reveal multitrait
plastic responses in South American Anostomidae fish (doi:
10.1002/jez.b.22905), de Bianca Bonini-Campos, Leandro Lofeu, Renata Brandt e
Tiana Kohlsdorf, pode ser lido em: https://onlinelibrary.wiley.com/doi/full/10.1002/jez.b.22905.
André Julião | Agência FAPESP
Jorge Meneses - Biólogo - Consultoria para pisciculturas e pesqueiros.
Contato : ( 11 ) 998116744 ( vivo e whatsapp )
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